Crítica | “Ruas da Glória” transforma desejo e obsessão em uma intensa jornada de autodescoberta

ruas da glória

Longe do Rio de Janeiro ensolarado que costuma dominar o imaginário brasileiro, Ruas da Glória escolhe a madrugada carioca como cenário para contar uma história de desejo, obsessão e pertencimento. Dirigido e roteirizado por Felipe Sholl, o longa estreou na mostra Première Brasil do Festival do Rio 2025, onde conquistou os Troféus Redentor de Melhor Ator Coadjuvante, para Alejandro Claveaux, e Melhor Atriz Coadjuvante, para Diva Menner, chegando aos cinemas em abril de 2026. Confira a seguir a crítica do Nosso Drama.

Sinopse

Após sofrer uma grande perda, Gabriel se muda para o Rio de Janeiro em busca de um recomeço. Na nova cidade, ele se envolve com Adriano, um garoto de programa uruguaio, por quem desenvolve uma paixão que rapidamente se transforma em obsessão. Quando Adriano desaparece, Gabriel inicia uma investigação que o leva cada vez mais fundo pela noite carioca, até se tornar ele mesmo um acompanhante, em uma jornada marcada por desejo, autodescoberta e perigos inesperados.

A Crítica

Todo mundo conhece o dia do Rio de Janeiro. Sol, praia, areia, belíssimas paisagens. Mas, em Ruas da Glória, a Cidade Maravilhosa ganha outros contornos: é a madrugada que assume o protagonismo. Noites calorosas que também escondem segredos, paixões e obsessões. E tudo o que Ruas da Glória expõe é quente e intenso.

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A dramaturgia é desenvolvida de maneira gradual. A ousadia proposta pela direção de Felipe Sholl se sobrepõe à delicadeza do conflito dramático que, quando menos se espera, emerge de forma visceral. A trajetória de Gabriel é construída de maneira cuidadosa. Sua aparente simplicidade dá lugar a uma complexidade que transita da ingenuidade à lascívia com naturalidade. No início do filme, tudo é maior que ele. Gabriel parece apenas um observador, tragado pelos acontecimentos, enquanto a própria noite carioca parece ocupar o centro da narrativa. Aos poucos, porém, Felipe Sholl desloca esse olhar. O interesse deixa de estar no universo ao redor e passa a se voltar para Gabriel. Seu desenvolvimento. Seus desdobramentos.

A classificação +18 assusta, mas garanto que há outros filmes com classificações mais baixas em que as cenas de nudez ou de sexo parecem muito mais agressivas que as construídas por Ruas da Glória. A sexualidade presente no longa-metragem está a serviço da proposta da direção: há contexto e significado. O filme não seria o mesmo sem ela. A ousadia, o tesão e a malícia intensificam a tensão do roteiro. A transformação vivida pelo protagonista é uma jornada intensa, interessante, ao mesmo tempo perturbadora e fascinante.

Caio Macedo conduz toda a trajetória de Gabriel com delicadeza e entrega. Se ao longo do filme sua interpretação acompanha a mudança gradual do personagem, é na cena final, ao lado de Diva Menner, que o ator alcança seu momento mais emocionante. O talento vocal da atriz encontra na entrega emocional de Caio uma parceria à altura, encerrando o filme com uma sequência de grande sensibilidade. A presença de Diva, aliás, sempre belíssima em cena, funciona quase como um respiro em meio ao sufoco vivido pelo protagonista. Alejandro Claveaux, por sua vez, entrega um tipo extremamente sedutor, problemático, mas com química e fragilidades que ajudam a fugir do estereótipo.

Além de Diva, os demais personagens secundários acabam funcionando quase como um único núcleo de apoio a Gabriel. É uma escolha que limita o desenvolvimento individual dessas figuras, especialmente por representarem uma diversidade de corpos, expressões e sexualidades que poderia ampliar ainda mais a discussão sobre marginalidade e desejo proposta pelo filme. Ainda assim, o grupo cumpre uma função importante ao oferecer ao protagonista um espaço de pertencimento. Um senso de família que nasce justamente em uma realidade que, vista de fora, costuma ser julgada por negar esse mesmo ideal. A busca do personagem (que nem sabia exatamente o que estava buscando) finalmente se aquieta ali. Ele deixa de buscar quando é encontrado e acolhido.

Tateando os limites entre admiração, paixão e obsessão, Ruas da Glória expõe um Rio de Janeiro pouco explorado. Ruas ocultas, pervertidas, por vezes obscuras, que ganham foco através das lentes de Felipe Sholl. Um foco sensual, observador, provocativo e, principalmente, consciente dos riscos que essas vielas escondem.

Impressão Final

Mais do que explorar a noite carioca, Ruas da Glória encontra na madrugada um espaço para falar sobre desejo, obsessão e pertencimento. Felipe Sholl transforma espaços marginalizados em cenários de encontros, descobertas e riscos, conduzindo um drama cuja verdadeira força está menos naquilo que expõe e mais na forma como acolhe seus personagens.

Nota: 4 de 5

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