Crítica | “Por Você” estreia com charme, referências e alguns tropeços

Estreia Por Você

Por Você começou, já nos primeiros segundos, mostrando seu respeito e carinho pelo gênero e por seus antecessores. Na trilha de fundo inicial, Palpite nos leva direto às telenovelas clássicas dos anos 1990, sobretudo Por Amor, maior referência dos autores. O locutor da rádio anuncia o trânsito nos arredores da praça Manoel Carlos, reverenciando o dramaturgo, enquanto, no carro, Bela (Sheron Menezzes) ouve a trilha de Coração Acelerado, novela antecessora, que se encerra para dar lugar ao tema da trama atual. “Depois de um sucesso, sempre vem outro”, brinca a personagem – embora saibamos que Coração Acelerado passou longe de ser um sucesso. É uma sequência simples, mas que já estabelece a proposta da novela: olhar para trás sem esconder as referências que pretende carregar consigo.

E, se a intenção é apostar em uma protagonista à moda dos grandes folhetins familiares, Sheron Menezzes parece ter encontrado o papel certo. A atriz esbanja simpatia e domínio de cena e apresenta uma personagem com potencial para realmente centralizar o conflito da história. Pode parecer óbvio, mas não faltam exemplos recentes de protagonistas preteridas por outros personagens ou temas ao longo da própria novela. Que este não seja mais um desses casos. Sheron, consolidada como uma das maiores de sua geração, merece esse espaço e Bela, pelo que foi apresentado, tem condições de ocupá-lo.

sheron em por voce

É ao redor dela que os autores Dino Cantelli e Juliana Peres constroem relações que também despertam interesse. Entre os enredos estabelecidos no capítulo inicial, dois me parecem particularmente promissores: o acidente ter sido causado por um amigo da família e o ressentimento de Vanessa (Alinne Moraes) por ter perdido um filho em um parto liderado por Bela, anos atrás. A rivalidade entre as duas, aliás, é uma das coisas mais interessantes da estreia justamente pela boa construção: existem ciúmes familiares, ressentimentos, divergências de interesses e visões diferentes de mundo antes mesmo de qualquer homem entrar na equação. É uma relação que pode sustentar muito mais do que o tradicional triângulo amoroso.

O problema é que, justamente quando a trama já oferece elementos suficientes para despertar o interesse, o texto parece não confiar neles. A exposição é excessiva. Algumas falas, como “eu estava lá aquela noite, eu vi tudo” ou “o Hospital & Maternidade Luz é…”, apenas verbalizam informações que a própria cena já havia deixado claras. O mesmo acontece com a repetição de que Bela preferiu a residência em Londres a Gabriel (Thiago Lacerda) e de outras escolhas de vida feitas por ela e pela amiga. Não é natural os personagens repetirem tantas vezes entre si essas informações, sobretudo quando todos já conhecem e viveram aquela história. É verdade que esse tipo de diálogo é comum em uma estreia de novela, quando existe a preocupação de apresentar o universo ao público. Ainda assim, aqui os autores pesam um pouco e tornam algumas cenas mais artificiais do que precisariam ser. Resta esperar que esse seja um vício de apresentação, e não uma característica permanente do texto.

Se houve algo que ajudou a tornar esse universo mais natural, foi a dinâmica entre Sheron e Lucy Ramos. Lucy, aliás, apresenta uma personagem que merece continuar na novela: sua leveza em cena é um deleite. Seria uma pena se sua participação acabasse reduzida ao primeiro capítulo e a eventuais flashbacks mensais. Milhem Cortaz, Alinne Moraes e Cauê Campos também deixam boas primeiras impressões e parecem ter material para crescer à medida que a história avançar.

Nem tudo, porém, funciona tão bem no aspecto técnico. Há alguns pequenos deslizes de continuidade e montagem. Nos primeiros segundos da novela, enquanto a câmera se aproxima do carro de Bela, dois ciclistas simplesmente desaparecem por causa de um corte em uma sequência que deveria ser contínua. Não chega a incomodar, mas chama atenção por acontecer nos primeiros 30 segundos de uma estreia (momento em que se espera um esmero redobrado) e por haver outros exemplos semelhantes ao longo do capítulo.

Esses problemas técnicos, porém, acabam se tornando ainda mais evidentes por uma questão que não depende do elenco ou dos autores: a maneira como a emissora tem escolhido produzir suas cenas. A diferença entre as sequências efetivamente gravadas em locação e aquelas feitas em estúdio para simular espaços do Rio de Janeiro é bastante nítida. A cena na Lagoa, por exemplo, esbanja a beleza natural da cidade. Já o metrô e o terraço de Bela e Juli revelam imediatamente a artificialidade da solução. A iluminação das cenas em chromakey em nada dialoga com a iluminação chapada do estúdio, produzindo um conflito estético que chega a lembrar uma sitcom de orçamento precário do Multishow. Por se tratar de um dos maiores produtos da segunda maior emissora de TV do mundo, é quase vergonhoso. Um primeiro capítulo merecia mais investimento. São cenas no Rio de Janeiro, e não na China.

No fim, é justamente essa contradição que resume a estreia. De um lado, Por Você demonstra cuidado com a tradição que pretende herdar, apresenta uma protagonista forte, relações familiares com bons conflitos e um elenco capaz de sustentar diferentes núcleos. De outro, tropeça em um texto que ainda explica demais e em escolhas de produção que diminuem o impacto de algumas cenas. Inspirados por tramas familiares cariocas como as de Manoel Carlos, Dino Cantelli e Juliana Peres têm um terreno fértil para desenvolver a história, sobretudo se souberem confiar mais nos conflitos que já construíram e menos na necessidade de explicá-los ao público.

Ainda assim, a sensação deixada pela estreia é boa. Sheron Menezzes está em estado de graça, há nomes consagrados e queridos do público no elenco e, mais importante, existe uma premissa que parece capaz de sustentar uma novela centrada em relações humanas, familiares e afetivas. A nova realidade da emissora, que sacrifica a qualidade em busca de um lucro maior, afeta o charme e a classe da obra que ela mesma parece querer homenagear. Mas, apesar disso, graças à premissa, Por Você deixa a impressão de que podemos estar diante de um novelão daqueles que amamos acompanhar.

Compartilhe

Autor

Matérias Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress