Dirigido por Carlos Saldanha, 100 Dias é um drama biográfico brasileiro inspirado no livro Cem Dias entre o Céu e o Mar, de Amyr Klink. O longa acompanha a histórica travessia realizada pelo navegador em 1984, quando se tornou a primeira pessoa a cruzar o Oceano Atlântico Sul sozinho, em um barco a remo. Estrelado por Filipe Bragança, o filme também conta com Philippine Leroy-Beaulieu, Felipe Camargo e João Vitor Silva no elenco. Com roteiro de Elena Soárez e Thais Tavares, a produção chegou aos cinemas brasileiros em 29 de outubro de 2026, com distribuição da Disney.

Sinopse
Em 1984, o jovem navegador Amyr Klink parte da Namíbia rumo ao Brasil para realizar uma travessia inédita pelo Oceano Atlântico Sul, utilizando apenas um barco a remo. Ao longo de cem dias sozinho em alto-mar, ele enfrenta tempestades, animais marinhos e os próprios limites físicos e psicológicos. Entre os desafios da jornada, memórias e conflitos familiares ajudam a revelar as motivações por trás de uma das maiores aventuras da navegação brasileira.
A Crítica
100 Dias é um filme que chama a atenção, antes de tudo, pela dimensão de sua realização. Ao retratar uma travessia tão particular e desafiadora, a produção encontra uma oportunidade de explorar possibilidades pouco comuns no cinema brasileiro, tanto do ponto de vista técnico quanto visual. É justamente nesse aspecto que o longa encontra alguns de seus maiores méritos, embora nem sempre consiga desenvolver com a mesma força a dimensão dramática da história que pretende contar.
Uma produção visual impressionante
A produção visual é bastante apurada, com imagens que transitam bem entre a imensidão do mar e a sensação de sufocamento no interior do barco. As sequências noturnas merecem um destaque especial: apresentam um desenho visual diferente, acrescentam mistério e contraste e conferem mais personalidade à fotografia, que ganha camadas e deixa de parecer tão chapada.
As direções de fotografia e de arte, aliás, são dois dos grandes diferenciais do filme. As cenas de tempestade e a cena das baleias também estão entre os grandes destaques.
A direção consegue trabalhar bem a alternância entre o presente, os flashbacks e a contagem dos dias, organizando essas diferentes temporalidades sem comprometer a compreensão da narrativa.
100 Dias é um destaque dentro do cinema brasileiro pela dimensão de sua produção e, sobretudo, por apostar em algo fora do óbvio, com um grau de dificuldade, originalidade e ineditismo em nossas produções.

Filipe Bragança em seu melhor papel no cinema
A atuação de Filipe Bragança é impressionante. Sem dúvidas, este é o papel de sua carreira no cinema até o momento. O ator já havia apresentado um ótimo trabalho em Meu Sangue Ferve Por Você, no qual demonstrou um admirável domínio corporal, ainda que em um registro bastante diferente. Em 100 Dias, apresenta uma composição física cheia de camadas e demonstra uma entrega que envolve tanto o corpo quanto as emoções, ainda que o próprio personagem imponha algumas limitações.
Apesar de o trabalho de Bragança se destacar especialmente pela dimensão física, gostaria de ter visto mais da preparação corporal do personagem e dos desafios físicos, biológicos e fisiológicos envolvidos em uma experiência tão extrema. Ainda que transite por diferentes intenções, o personagem acaba sendo ligeiramente limitado. Não sabemos tanto sobre ele além de seu desejo de provar ao pai e às outras pessoas que é capaz de realizar aquela travessia.
Felipe Camargo também apresenta uma atuação que cresce a cada cena em que aparece. Philippine Leroy-Beaulieu e João Vitor Silva contribuem para humanizar o protagonista e funcionam bem nos momentos dramáticos, ajudando a construir as relações familiares que atravessam a história.
As limitações do roteiro e da construção dramática
Um dos primeiros aspectos que me causaram estranhamento foi a falta de um contexto inicial mais desenvolvido. O longa-metragem já começa na partida de Amyr. Entretanto, a narrativa acerta ao explorar essas informações por meio dos flashbacks – e, ao longo da projeção, é perceptível o porquê de ser apresentado tanto contexto antes dos acontecimentos: ele é bastante raso.
As motivações de Amyr, soam, por vezes, fracas e forçadas. Afinal, tudo foi só para mostrar ao pai que era capaz? Quem era Amyr além disso? Já tinha experiência com barcos? Já era profissional? Como foi a sua preparação? Por que essa fixação com o mar? Veio ‘apenas’ como símbolo de enfrentamento ao pai após o incidente na infância? Essas questões são importantes porque não estamos falando de alguém que simplesmente decidiu entrar sozinho no mar para afrontar o pai. Ele literalmente escolheu REMAR SETE MIL QUILÔMETROS SOZINHO EM MAR ABERTO. Parece um pouco demais diante do contexto motivacional que nos foi apresentado.

Outro aspecto considerável, que nos faz resistir a comprar essa odisseia, é a teimosia, por vezes gratuita, do protagonista. No meio da travessia, quando é alertado sobre os riscos de determinada rota, ele insiste em manter seu planejamento inicial, mesmo sabendo do perigo. Só depois de enfrentar aquilo sobre o que havia sido advertido é que decide retornar à rota sugerida. Mas por que tanta resistência a uma pessoa que, diferentemente do pai, era experiente e já havia se mostrado disposta a ajudar? A mudança não significaria abandonar a missão, apenas seguir um caminho mais seguro. Qual o sentido de escolher uma rota mais perigosa apenas para provar que poderia fazer o que queria? E, no fim, nem consegue mantê-la, já que precisa voltar.
A abordagem da direção apresenta um bom equilíbrio entre tensão e contemplação, mas o resultado final me parece um drama sério demais para o conflito apresentado. Talvez a história funcionasse melhor como um filme de aventura, com uma abordagem mais leve, do que como o drama que escolhe ser. Ainda assim, é justamente nos momentos de contemplação que o filme encontra algumas de suas reflexões mais interessantes. As anotações do protagonista, por exemplo, contribuem para seu aprofundamento e trazem passagens muito bonitas. É o caso de quando Amyr fala sobre não sentir solidão, apesar de passar cem dias sozinho no meio do oceano. Saudade, sim; solidão, não. Também é interessante sua reflexão sobre o desejo de partir e a incerteza que surge quando finalmente chega o momento de alcançar o destino: depois de tanto querer chegar, a chegada já não parece tão interessante quanto a própria jornada.
Impressão final
100 Dias é uma produção tecnicamente impressionante, que se destaca pela concepção visual, pela dimensão de sua realização e pela entrega de Filipe Bragança. Apesar disso, o filme encontra dificuldades para desenvolver melhor as motivações do protagonista e explorar a dimensão emocional e os desafios de sua travessia. É uma experiência cinematográfica relevante para o cinema brasileiro, mas que poderia encontrar um equilíbrio mais interessante entre aventura e drama.









