Que tal uma comédia romântica entre bruxas ambientada no boêmio bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro? Essa é a premissa inusitada de Trago Seu Amor, longa-metragem da diretora Cláudia Castro, que transforma a excentricidade em uma fantasia romântica cheia de personalidade.
Sinopse
Mia (Giovanna Grigio) é uma jovem bruxa egocêntrica que vive de usar seu poder incomum: qualquer pessoa que a beija passa a se apaixonar por ela ou volta a amar a última pessoa por quem teve sentimentos. Acostumada a controlar a vida amorosa de seus clientes, ela vê tudo mudar quando tenta ajudar Yuri (João Manoel) a reconquistar sua ex-namorada, Renê (Jê Soares). O feitiço, porém, toma um rumo inesperado, e é a própria Mia quem acaba se apaixonando por Renê, dando início a uma divertida e sensível comédia romântica que mistura fantasia, humor e reflexões sobre os caminhos imprevisíveis do amor.
A Crítica
Misturando fantasia, romance e comédia, Trago Seu Amor demonstra personalidade própria logo no prólogo, quando apresenta o conflito central da história e constrói seu universo. Os clipes iniciais ajudam a compreender tudo o que está por vir sem que a narrativa pareça didática. O universo conquista de imediato: a cenografia bucólica de Santa Teresa surge como cenário ideal para uma atmosfera mística e provocativa. Além disso, a direção de arte consegue extrair o melhor tanto das locações quanto do universo bruxo, piegas e excessivamente romântico proposto pelo roteiro.

Mas o principal mérito de Trago Seu Amor está no desenvolvimento do roteiro. A autora equilibra comédia e romance enquanto constrói uma protagonista complexa, capaz de transitar por diferentes nuances. Giovanna Grigio demonstra maturidade ao assumir uma personagem tão contraditória. Mesmo quando é egoísta, grosseira e ingrata com o melhor amigo, o roteiro toma o cuidado de tornar tudo verossímil, sem recorrer a soluções artificiais apenas para favorecer sua evolução.
Mia não sabe lidar com o fato novo de não ser a controladora de tudo. Ao mesmo tempo em que deseja controlar René (Jê Soares), quer ser amada de forma genuína. Quer que René a escolha por vontade própria. Gradualmente, percebe que a situação pode estar se invertendo. A virada de chave renova o fôlego do roteiro quando Mia passa a desconfiar de que está sendo enfeitiçada por Renê e as duas entram em um jogo cada vez mais dissimulado, impulsionando boa parte do desenvolvimento dramático da trama.
Como romance, o longa também encontra força na delicadeza. Além da química entre as atrizes, o texto contribui ao inserir poesia na medida certa. Há uma frase sobre beleza e toque que já é muito eficaz no momento em que é dita, mas que ganha ainda mais significado quando o roteiro finalmente completa seu percurso emocional.
Diego Martins e João Manoel funcionam como importantes contrapontos à fantasia da trama. São personagens mais humanos, mais próximos da realidade. Por isso mesmo, causa certa frustração perceber que a trajetória nos dois não chega a uma conclusão, embora a história indique um caminho provável. A última cena dos dois surge de forma um tanto aleatória e não encerra adequadamente seus arcos dramáticos. Por alguns instantes, cheguei a imaginar que haveria alguma cena pós-créditos, que, infelizmente, não acontece.

As participações especiais cumprem muito bem seus propósitos. Desde a atendente feliz, passando pela adolescente e pelo “galã” – cuja aparição surpresa provocou uma reação imediata da plateia, todas arrancam risadas, mesmo quando apostam em tipos mais caricatos. Esses personagens ajudam a sustentar o humor justamente quando a narrativa passa a caminhar por territórios mais românticos e dramáticos.
A direção de Claudia Castro cria ambientações envolventes e conduz a obra com um ritmo eficiente tanto nos momentos românticos quanto nos cômicos. No entanto, encontra dificuldades justamente em uma das sequências mais importantes do filme: o clímax.
Centrado na grande declaração amorosa, o momento crucial acaba se tornando um pouco inverossímil. A forma como a personagem consegue alcançar a outra de maneira tão rápida já provoca certo estranhamento. Contudo, o principal problema está na ambientação da cena. Os carros permanecem literalmente parados, sem pessoas visíveis e com os faróis desligados. Não há qualquer sensação de movimento em um momento que, pela sonoplastia, deveria transmitir caos e urgência.
Por causa disso, a sequência parece mais um feitiço que fez todos os humanos desaparecerem do que um congestionamento real. Embora seja um detalhe relativamente pequeno dentro do conjunto da obra, foi suficiente para me afastar momentaneamente da experiência, enfraquecendo parte do impacto emocional da declaração.
No geral, Trago Seu Amor é um ótimo exemplar da comédia romântica nacional. Diverte, alegra, apaixona e encanta. Mais do que isso, encontra uma identidade própria ao combinar fantasia, romance e o charme de Santa Teresa sem abrir mão da leveza que sustenta toda a experiência.
Impressão final
No fim das contas, são justamente a leveza, o carisma e a identidade do filme que permanecem após os créditos. Trago Seu Amor pode até tropeçar em alguns detalhes, mas acerta no essencial: faz rir, sensibiliza e usa a fantasia como um ótimo caminho para falar sobre sentimentos genuínos.
Nota: 4 de 5









