Lançado em um momento em que o debate sobre infância e redes sociais vem ganhando força no Brasil, #SalveRosa se insere em um cenário marcado por casos reais de exposição excessiva de crianças na internet. A popularização de influenciadores mirins, a busca por engajamento a qualquer custo e a pouca fiscalização sobre esse conteúdo levantam dúvidas éticas e legais. É nesse contexto que o filme constrói sua narrativa, que, embora fictícia, tem um embasamento muito mais real do que gostaríamos de admitir. O longa-metragem dirigido por Susanna Lira mostra como a linha entre afeto, cuidado e exploração vem se tornando perigosamente tênue.

Sinopse
Em #SalveRosa, uma adolescente que vive a rotina de influenciadora digital passa a ter sua intimidade e sua imagem exploradas pela própria família, que enxerga nas redes sociais uma fonte rápida de fama e dinheiro. À medida que o sucesso cresce, a pressão por conteúdo constante aumenta e os limites entre vida pessoal, trabalho e abuso se tornam cada vez mais difíceis de separar. A narrativa acompanha essa escalada de exposição até que uma situação extrema coloca em xeque o papel dos responsáveis e o impacto emocional de toda essa dinâmica na protagonista.
A crítica
#SalveRosa é um filme, antes de tudo, atual. Com a internet se inserindo cada vez mais cedo na vida das pessoas, a ligação entre mundo real, mundo virtual e o mundo imaginário vem se tornando cada vez mais estreita. Esses limites, entendidos de formas diferentes por cada responsável, deixam crianças e adolescentes vulneráveis a um mundo muito mais maldoso do que aparenta. O problema se tornou ainda mais evidente quando a internet também virou fonte de renda. Tudo é feito pela monetização. Sem saber dos riscos – ou ignorando‑os –, pais incentivam ainda mais a exposição de menores nas redes, a fim de lucrarem a partir da imagem de seus próprios filhos.
O problema não é recente. A publicidade, a música e a televisão, por exemplo, já trouxeram tal discussão em outros momentos. Entre soluções, foram criados sindicatos e órgãos reguladores que garantem trabalho para menores de idade sem prejudicar suas vivências naturais. Mas, e quando esse problema acontece no âmbito familiar, sem qualquer regularização externa? Quando é incentivado por quem deveria estar instruindo a criança? De forma desenfreada, as redes sociais oferecem exposição e rentabilidade que crescem em sintonia, e sem qualquer tipo de fiscalização. É exatamente sobre essa realidade que #SalveRosa se debruça.

Apesar de Ângela Hirata Fabri e Mara Lobão criarem um roteiro ficcional, #SalveRosa remete diretamente a alguns casos recentes que envolveram crianças superexpostas na internet. No longa-metragem, a roupagem é elevada a outra estética. Trata‑se de uma espécie de suspense que evidencia o caminho extremo para onde as coisas podem ir se não forem discutidas. Os casos reais são suficientes para sabermos que, sim, a situação é bastante verossímil – e, infelizmente, cada vez mais possível.
Não havia outra atriz melhor que Klara Castanho para protagonizar o longa. Na televisão desde criança, Klara ainda carrega este estigma de “parecer uma menina” e de interpretar personagens infantilizados mesmo aos 24 anos de idade. Sua interpretação é madura, consciente. Sem dúvidas, trata‑se de um dos melhores trabalhos desta já consolidada, mas ainda muito promissora carreira. Karine Teles interpreta a mãe e se dá bem no papel de mulher fútil e sem noção da responsabilidade pelas escolhas que faz. A antipatia pela personagem é potencializada pela total naturalidade de suas ações e discursos, que soam tão simples e triviais, embora cruéis.

Direção de arte e figurinos ajudam na ideia proposta. Junto à direção de fotografia, ao mesmo tempo que trazem infantilidade, cores e ludicidade, também caminham em direção ao suspense e ao thriller quando necessário. Essa combinação visual reforça a contradição entre o universo colorido do mundo infantil e a escuridão dos bastidores que o filme deseja denunciar.
O roteiro acerta na crescente de tensão e aflição que as roteiristas constroem. O exagero da reta final, quase absurda, dialoga com Black Mirror (2011), que também aposta em distopias causadas por problemas atuais, sobretudo desafiando limites éticos. Isso assusta porque, com o caminhar das coisas, é uma realidade que parece cada vez mais possível. No fim, #SalveRosa se revela um filme potente, ótimo para gerar e contribuir com discussões tão importantes e tão atuais sobre infância, internet e responsabilidade dos adultos.
Impressão final
Com uma abordagem direta e incômoda, #SalveRosa usa a linguagem do suspense para discutir a exploração infantil nas redes de forma acessível e urgente. O elenco afinado, a construção gradual da tensão e o olhar crítico sobre a lógica da fama digital fazem do filme uma obra necessária para pais, educadores e espectadores em geral.
Nota: 4,0 de 5,0.
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