CRÍTICA | “Hétero Sigilo”: Entre a Sombra da Máscara e a Coragem da Exposição

Bernardo Dugin em "Hétero Sigilo"

“Corajoso e delicado”. Estas foram as palavras que ecoaram nos corredores da Casa de Cultura Laura Alvim ao fim de Hétero Sigilo. Escrito e protagonizado por Bernardo Dugin, o monólogo transpõe para a cena as vísceras da relação do ator com sua própria sexualidade, traçando um arco que vai da repressão na infância às experiências da adolescência; da não-aceitação na juventude à ressignificação na vida adulta.


A direção de João Fonseca é cirúrgica ao privilegiar o texto. Luz, marcações e sonoplastia operam em harmonia narrativa, servindo de suporte para que a interpretação de Dugin soe como um desabafo íntimo – quase como se o público fosse o amigo a quem ele finalmente responde: “Como foi pra você lidar com a sua sexualidade?”. Um destaque para a bonita iluminação de Daniela Sanchez, que demarca personagens, tempo e situações de maneira bastante eficaz.


A cenografia de Nello Marrese destaca, com ênfase, um símbolo masculino que pende no teto do início ao fim da peça. É uma escolha visual poderosa que escancara a obsessão do personagem: a busca por provar-se másculo, um símbolo visual/comportamental do “homem padrão” – masculino, viril e, sobretudo, hétero. Durante a narrativa, o personagem se transforma, mas o elemento no cenário permanece imponente. Uma permanência que sugere que a pressão social pela masculinidade tóxica não desaparece subitamente com a autoaceitação; ela segue ali, como uma sombra ou um lembrete do esforço constante de ter que “parecer”.


O lado delicado do texto de Dugin está na forma sensível de entender e expor suas feridas. A frase “A gente aprende a mentir antes mesmo de aprender a amar” sintetiza a dor de uma figura que encontrou na mentira o conforto perante a expectativa alheia, ainda que às custas do sacrifício da própria identidade. O contato com a religião, que se inicia nos bancos de uma escola confessional e culmina no episódio da denúncia real contra a homofobia de um padre, traz momentos singelos de acolhimento e amparo para alguém que, finalmente, escolheu pertencer.

Bernardo Dugin em cena de “Hétero Sigilo”


Contudo, é na coragem de expor o “eu-opressor” que a peça encontra seu terreno mais espinhoso. É, sem dúvidas, admirável assumir os preconceitos e estigmas que o protagonista reforçou para tentar ser reconhecido como o que nunca foi. Comportamentos machistas e homofóbicos de outrora são relatados com arrependimento genuíno e peso na voz. Embora a peça foque na cura do protagonista, há uma lacuna incômoda: falta o reconhecimento pleno de que, embora fosse vítima de um sistema, ele também operou como braço dessa opressão. O dano causado a terceiros – como o melhor amigo que, além de abandonado, foi alvo de mentiras – acaba ganhando menos peso dramático do que o necessário para uma reparação completa, sendo por vezes minimizado em prol do sofrimento próprio.


Essa ausência de autocrítica se estende à questão do privilégio. A fala “não queríamos precisar militar, queríamos apenas nos sentar ali”, dita sobre um encontro com o namorado, evidencia como um homem branco, padrão, sarado e com bom recorte socioeconômico tem o privilégio de optar por “não querer militar”. Para muitos corpos LGBT+, a militância não é mera escolha, mas a única via de sobrevivência. Reconhecer que sua “máscara social”, embora dolorosa, o protegeu de violências que atingem quem não tem a opção de se mascarar, elevaria o discurso de Dugin do âmbito pessoal para um lugar politicamente necessário, enriquecendo ainda mais a dramaturgia.


Ainda assim, Hétero Sigilo é eficaz e alcança o público através de uma identificação imediata. Essa eficácia é sintetizada na própria trajetória de transformação do personagem-ator: ele parte de uma cena inicial em que, sem camisa e mascarado, exibe-se em uma performance hipermasculinizada diante de uma webcam – encenando o arquétipo do “macho” para consumo alheio – para terminar como um homem pleno e livre. Nem hétero, nem sigiloso. É nítida a importância pessoal do projeto para o ator e é bonito ver como o reconhecimento de ser quem se é torna tudo tão mais leve e autêntico. O texto, como desabafo, torna-se símbolo de libertação para Dugin e para todos que, após tanto tempo mentindo, finalmente aprenderam a (se) amar.


Um símbolo de renascimento. Corajoso. Delicado.

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